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Não ao Cativeiro!

Você irá encontrar neste site três histórias de cativeiros que mantiveram cetáceos realizando malabarismos em troca de alimento entre 1968 e 1993 no Brasil. Poucos empresários enriqueceram com facilidade após forçar golfinhos-nariz-de-garrafa e orcas a realizarem espetáculos de circo, e expor botos-cor-de-rosa da Amazônia em um Shopping Center como se fossem "animais raros". A maioria destes animais perdeu sua vida em troca da riqueza de alguns "amantes dos golfinhos".

No Brasil, esta indústria parou suas atividades na década de 1990. Todos sabem que comportamento forçado é comportamento pervertido. Todos sabem que o confinamento é deletério à mente dos humanos e dos animais. Prefira visitar esses animais na natureza, em seus termos.

OCEANORIUM, SÃO VICENTE, SP

"Flipper" alguns dias antes de sua soltura na Natureza (Foto: A TRIBUNA de Santos)

O Estado de São Paulo abrigou três recintos com cetáceos. Um desses recintos localizava-se no município de São Vicente e era chamado de Oceanorium. Aquele recinto não só manteve golfinhos-nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus), mas também lidou com leões-marinhos (Zalophus californianus) trazidos da Califórnia. Eles mantiveram mamíferos marinhos entre 1968 e 1993. Pelo menos 10 golfinhos-nariz-de-garrafa morreram em um tanque pequeno que continha água com tratamento inadequado. Apenas para dar uma ideia aos leitores sobre como os animais eram tratados neste recinto, segue fatos comprovados. No dia 15 de janeiro de 1970, uma fêmea da espécie T. truncatus chegou da Califórnia e morreu quatro dias depois em função dos maus tratos durante o transporte. Naquela ocasião, o empresário possuía cinco golfinhos-nariz-de-garrafa e três leões-marinhos. Naquele mesmo ano, o dono do Oceanorium trouxe outro golfinho da Califórnia que recebeu o nome de "Juliet".

Esta fêmea morreu dois anos depois com pneumonia. No mesmo ano, outra fêmea chamada de "Brigitte" também morreu. Após a necropsia, mais de 2 kg de pregos, bolas de gude e pedras foram encontrados em seu estômago. Em 1990, aquele recinto tinha apenas dois golfinhos: "Carolina", uma fêmea que morreu naquele ano, e "Flipper", que parou de se apresentar em 1991 e foi solto em Santa Catarina em 1993. O Oceanorium fechou em seguida, e desde 1993 não presenciou mais mortes de cetáceos.

EXOTIQUARIUM, MORUMBI SHOPPING, SP

Bia e Tiquinha expostas em um Shopping Center (Foto: Alberto Helena Garcia)

Um par fêmea-filhote de botos-cor-de-rosa (Inia geoffrensis) foi capturado no Rio Formoso, no Estado de Goiás, em 1985. Eles foram trazidos para uma piscina de dimensões pequenas no Morumbi Shopping, localizado na cidade de São Paulo. A piscina tinha cerca de quatro metros de profundidade e parecia mais uma vitrine de uma das lojas do shopping. As pessoas que lidaram com aqueles botos desconheciam sobre a biologia da espécie, assim como nunca haviam lidado com golfinhos em cativeiro. Eles chamaram a fêmea adulta de "Bia" e o filhote de "Tiquinha". No dia 29 de maio de 1987, a "Tiquinha" morreu com pneumonia crônica, provavelmente causada por tratamento inadequado do recinto. Uma Organização Não Governamental chamada "União Internacional de Proteção aos Animais" (UIPA) ordenou o governo brasileiro que liberasse a outra fêmea. Em julho de 1988, "Bia" foi solta no Rio Formoso e desapareceu. O recinto para cetáceos do shopping foi então fechado.

 

ORCA SHOW, PLAYCENTER, SP

Samoa em exibição no Playcenter, na década de 1980. (Foto: Marcos César de O. Santos)


Golfinho-nariz-de-garrafa se exibindo em tanque no Playcenter, SP (Fotos: Marcos César de O. Santos)

Em 1985 duas pequenas orcas foram capturadas em águas da Islândia. Elas foram transportadas por um navio das águas límpidas da Islândia para um tanque de águas escuras na cidade de São Paulo. Elas viveram no extinto Playcenter, um parque de diversões da cidade. A piscina em que viviam tinha dimensões pequenas contendo água com tratamento inadequado. Elas receberam os nomes de "Nandú" (macho) e de "Samoa" (a fêmea). Provavelmente, por causa do estresse da captura e do transporte não apropriado, "Nandú" comeu bolas de basquete na viagem e todo o plástico que revestia a piscina internamente. Ele sempre teve problemas estomacais e intestinais. No dia 2 de março de 1988, "Nandú" morreu com um tumor nas glândulas adrenais. Ele tinha quatro metros de comprimento e não mais do que quatro anos de idade. Ele está exposto no Museu da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP em São Paulo, seu novo lar. "Samoa" permaneceu no tanque até o mês de março de 1989, quando ela foi vendida ao Sea World de Orlando, onde faleceu três anos depois com menos de seis anos de idade. Alguns golfinhos-nariz-de-garrafa e leões marinhos também viveram neste recinto. Desde 1990 não houve mais apresentações de mamíferos aquáticos no Playcenter.


Samoa sendo transportada para o Aeroporto Internacional de Guarulhos (Fotos: Folha de S. Paulo - Arquivos)

 

Quando os mares têm paredes

No ano 2000, o Ministério do Meio Ambiente proibiu a exploração de 49 mamíferos aquáticos da fauna nativa ou exótica brasileira em espetáculos públicos. Por um lado foi definitivamente um passo lúcido do governo brasileiro. A legislação vigente até então estava dando abertura a empresários gananciosos que, por alguns momentos, puderam enriquecer com o sofrimento de mamíferos aquáticos. 

Orca em cativeiro nos Estados Unidos, onde a indústria rende milhões de dólares. (Foto: Marcos Santos)

Estes são exemplos caseiros que poderiam se repetir com mais facilidade no Brasil, caso o governo federal não tomasse a atitude acima mencionada. Porém, a lei deixa claro que, caso os mamíferos aquáticos sejam trazidos do exterior, aqueles mesmos empresários poderão exibi-los ao público, porém sem as performances denominadas mundialmente como espetáculos. “Nandú”, “Samoa”, “Bia”, e “Tikinha” são alguns dos milhares de exemplos que existem espalhados pelo mundo. Animais graciosos que foram forçados a trocar a vida livre pela prisão, e pagaram com suas vidas o bem-estar de alguns poucos empresários. Alguns países, como a Inglaterra por exemplo, proibiram definitivamente a manutenção desses animais em cativeiro. Organizações Não-Governamentais Internacionais continuam sua batalha para que a legislação em seus países seja mais rigorosa com os mega-parques, que por sua vez enriquecem poucas pessoas às custas do trabalho escravo dos “palhaços do mar”. O Brasil tomou uma importante decisão e espera-se que a mesma seja mantida e aprimorada.

Enquanto isso os registros de interações fatais entre orcas e treinadores aumentam numericamente em tanques pelo mundo. Seria uma resposta à sensação de angústia por viver em um local tão pequeno? Seria uma resposta a possíveis maus tratos? Estariam essas orcas estressadas de tantos compromissos ininterruptos? Não será de se espantar que esses casos continuem em crescentes registros nas próximas décadas.