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Fique por Dentro

Esta seção abordará alguns assuntos específicos sobre os cetáceos que geralmente chamam a atenção de diversos estudantes de Universidades e de Colégios pelo Brasil, assim como os demais interessados nos cetáceos. São textos resumidos preparados pelo Biólogo Marcos César de Oliveira Santos para apresentar alguns aspectos sobre os assuntos tratados. Logicamente tais assuntos são muito mais complexos do que aqui apresentados, e caberá ao interessado procurar mais aprofundamento sobre os assuntos tratados. Os textos podem ser utilizados por qualquer pessoa, seja para um trabalho acadêmico (escola ou Universidade), seja para divulgação, desde que a fonte seja devidamente citada. Maiores detalhes podem ser encontrados em livros que nossa equipe vem doando à biblioteca do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo. Os tópicos em ordem alfabética estão listados abaixo.

Adaptações ao Ambiente Aquático

Durante o processo evolutivo, adaptações morfológicas e fisiológicas foram necessárias aos ancestrais das baleias e golfinhos para que eles se adaptassem ao ambiente aquático. Hoje os cetáceos representam o maior e mais adaptado grupo de mamíferos que retornou à vida aquática. Dentre as principais adaptações, temos: 


A) Transformação da forma externa do corpo em uma forma hidrodinâmica (número 1 na ilustração abaixo), como a dos primitivos vertebrados aquáticos. Houve o encurtamento das vértebras cervicais e, com isso, o desaparecimento do pescoço. A parte anterior do crânio alongou-se e a narina migrou para o topo da cabeça, formando os orifícios respiratórios (número 2 na ilustração abaixo). Os cetáceos podem respirar sem tirar os olhos do meio aquático, tomando cuidado com a aproximação de predadores ou outras ameaças, ou mesmo evitando perder uma presa ou seus congêneres de vista. Toda a caixa craniana se modificou.

Baleia-jubarte vindo superfície da água para respirar oxigênio do ar por meio de pulmões. Foto: Marcos Santos.


Os membros anteriores transformaram-se em nadadeiras (número 3 na ilustração abaixo). Os membros posteriores regrediram. Vestígios destes membros podem ser encontrados inseridos na musculatura de algumas espécies de baleias e de golfinhos.

Desenho esquemático de um cetáceo ilustrando o corpo fusiforme. Ilustração: Avelino Guedes em Santos (1996).


A cauda assumiu importante papel locomotor. Ela é horizontal e formada por dois lobos sem estrutura óssea, e constituídos por tecido conjuntivo denso. Chama-se de nadadeira caudal (número 4 na ilustração acima).

Nadadeira caudal de baleia-jubarte. Dois lobos deslocam uma grande quantidade de água no deslocamento. Um pedúnculo caudal formado for uma rede intrincada de fibras musculares completam o arsenal para a propulsão. Foto: Marcos Santos.

 

B) O pênis dos machos e as glândulas mamárias das fêmeas encontram-se alojados internamente, e não há pavilhão auditivo para captar sons. Assim não existem partes protuberantes do corpo que atrapalhem seu movimento causando atrito com a água.

Porção ventral de um macho de boto-cinza. Mais à esquerda nota-se a abertura do ânus e, mais à direita, a fenda da genitália de onde sairá o pênis no momento da cópula. Foto: Marcos Santos.

 

C) Ausência ou escassez de pelos, que em contato com a água os tornariam lentos. Algumas espécies (jubarte, franca e cinzenta) apresentam pelos na região da cabeça, muito provavelmente funcionando como estruturas sensoriais – são chamados de vibrissae.

Cada protuberância encontrada na cabeça da baleia-jubarte apresenta um pelo, chamado de vibrissae. Sua função possivelmente é mecanorreceptora. Foto: Marcos Santos.

D) Para resolver o problema do controle da temperatura corpórea, os cetáceos apresentam uma camada de gordura que reveste o corpo sob a pele, que é chamada de blubber. Ela é um isolante térmico que também funciona como estrutura de reserva e auxilia na flutuabilidade.

 

E) Sistema de eco-localização. Até então só descrito para os Odontocetos (cetáceos com dentes). Costuma-se dizer que os Odontocetos "enxergam com os ouvidos". O complexo auditivo desses cetáceos não é utilizado somente para que o animal ouça os sons provenientes do ambiente, mas também aqueles emitidos por eles mesmos no processo de operação de seu sonar ou eco-localização. Este sistema é o mesmo que o utilizado por morcegos e submarinos. A grande vantagem da utilização das ondas sonoras sob a água é que o som propaga-se quase cinco vezes mais rápido na água (1.500 m/seg) do que no ar (340m/seg), tornando o processo mais eficiente. Um fato bastante curioso está relacionado com a emissão dos sons pelos cetáceos. Apesar de não possuírem cordas vocais como nós, eles emitem sons de baixa e de alta frequência, dependendo das circunstâncias, captáveis ou não ao ouvido humano, dependendo da frequência de emissão. No complexo nasal e em outras passagens de ar originadas no orifício respiratório há uma vibração de ar responsável pela emissão de sons, provocada por ação muscular das paredes. É o mesmo processo realizado pelas crianças nas festas de aniversário quando obstruem a saída do ar das bexigas para produzir som.

O processo: Os Odontocetos possuem elaboradas modificações na cabeça e no sistema respiratório que os permite enviar e receber ondas sonoras que variam dentro de um grande intervalo de frequências. Eles apresentam uma saliência peculiar na cabeça denominada de melão (número 1 na ilustração acima) , ao qual associa-se um orifício respiratório e uma série complexa de sacos aéreos associados às passagens nasais (número 2 na ilustração acima). O melão, constituído principalmente por gordura, é um excelente condutor de ondas sonoras. As ondas sonoras produzidas passam sem interrupção através da água até chocarem-se com um objeto sólido (número 3 na ilustração acima). Quando isto ocorre, elas refletem e retornam à fonte de produção. O intervalo de tempo entre a produção inicial do som, seu movimento até o alvo e retorno subsequente depois da reflexão, é uma medida de distância entre a fonte e o objeto. A produção contínua de ondas sonoras e a avaliação das ondas refletidas durante a navegação dão ao cetáceo uma noção constante de todos os objetos existentes em seu caminho; desde as presas, passando pelos seus congêneres até os predadores. As ondas sonoras são captadas por um canal de gordura existente na mandíbula destes animais (número 4 na ilustração acima), e conduzidas pelo mesmo para os ouvidos internos. Estes são envoltos por uma rede complexa de sinusóides semelhando-se a uma espuma, que auxilia na proteção contra pressões altas e que isola o ouvido do resto da cabeça. Portanto os ouvidos são afetados apenas pelas ondas sonoras que viajam diretamente a eles através da água. Os ouvidos enviam as informações das ondas sonoras ao cérebro. A interpretação das ondas sonoras ainda é um mistério a ser desvendado. Alguns pesquisadores acreditam que as ondas sonoras são transformadas em imagens reais do anteparo que as refletiu. Outros acreditam que as ondas são decodificadas no cérebro, dando uma noção do que era o anteparo.


F) Comunicação: O som também pode ser utilizado com outra finalidade fundamental à vida subaquática – a comunicação social. Apesar dos Misticetos não serem reconhecidos como eco-localizadores, eles (e os golfinhos também) produzem ondas sonoras para localizarem-se no ambiente aquático em relação aos outros indivíduos do grupo, já que neste ambiente estes animais devem estar atentos às três dimensões em que se encontram. A comunicação social também pode estar relacionada com os diversos comportamentos apresentados por estes animais, tais como a côrte, as estratégias alimentares, a migração, dentre outros. Por exemplo, as emissões sonoras são importantes nas áreas de reprodução e cria de baleias-jubarte para que indivíduos se encontrem mais facilmente. Portanto, é importante discernir que o som pode ser utilizado de duas formas diferentes pelos cetáceos: para localização e para comunicação. Os sons utilizados para a comunicação são geralmente chamados de assobios, enquanto que os utilizados para a eco-localização são geralmente chamados de estalidos.
G) Adaptações ao mergulho: Muitas pessoas acreditam que o segredo da capacidade de mergulho dos cetáceos reside no grande tamanho de seus pulmões. Realmente estes são muito grandes, porém nem tanto assim quando comparados com o tamanho e peso corpóreo destes mamíferos. Sob este aspecto, podemos dizer que seus pulmões são relativamente pequenos em relação ao seu tamanho e peso, como nota-se a seguir:

  • Maioria dos cetáceos: menos de 1% do peso corpóreo.
  • Homem: 1,76% do peso corpóreo.
  • Elefante: 2,55% do peso corpóreo.

Por outro lado, os cetáceos utilizam seu sistema respiratório de uma maneira mais eficiente do que os mamíferos terrestres. Eles apresentam muito mais alvéolos por volume de pulmões (pequenos sacos revestidos por células capazes de realizar trocas gasosas) do que nós. Estes são envoltos por duas camadas de capilares, aumentando a eficiência da troca gasosa. A pleura (tecido de revestimento dos pulmões) é muito mais resistente e espessa do que a nossa. O tecido pulmonar propriamente dito contém uma grande quantidade de fibras mioelásticas, fornecendo maior elasticidade aos pulmões. Os brônquios estão associados com tecido muscular. Há tecido cartilaginoso na constituição dos pulmões. Até bronquíolos com pequeníssimo diâmetro de abertura estão equipados com esfíncteres que separam os alvéolos do resto do pulmão. A função destes esfíncteres é incerta. Eles provavelmente impedem a entrada de ar nos alvéolos durante certas fases do mergulho, como no caso em que os pulmões estão comprimidos. Portanto, em nível de ultra-estrutura, pode-se ter noção da eficiência do sistema respiratório dos cetáceos.

Cachalote: o melhor mergulhador entre os mamíferos. Ilustração: Avelino Guedes.


Em adição, nós só renovamos entre 10 e 20% (15% em média) do conteúdo de nossos pulmões em uma respiração normal. Nos cetáceos, a taxa de renovação é de 80 a 90% do ar viciado. A reposição e o gerenciamento do ar é a chave para a eficiência do mergulho destes animais. A quantidade de ar que os cetáceos levam em seus pulmões quando mergulham não é tão grande. Mesmo que seus pulmões estejam com toda a sua capacidade completa, este conteúdo não seria suficiente para sustentar mergulhos de meia hora ou mais. Os cetáceos se preparam para os mergulhos através da realização de algumas profundas respirações em rápida sucessão antes de descer, processo conhecido como hiperventilação. Assim, eles aumentam o conteúdo de oxigênio não apenas nos pulmões, mas no sangue e em tecidos que funcionam como reservatórios de oxigênio. Quando submersos, os cetáceos não armazenam oxigênio como fazemos, como nota-se a seguir:

 

TECIDOS e FLUIDOS

SERES HUMANOS

CETÁCEOS

Pulmões

34%

09%

Sangue

41%

41%

Músculos

13%

41%

Outros Tecidos

12%

09%


Os cetáceos apresentam um número muito maior de células sanguíneas vermelhas (hemácias) por unidade de volume de sangue do que os humanos e, consequentemente, o sangue dos cetáceos é mais rico em hemoglobina (proteína que transporta oxigênio) do que o nosso (1,3 a 1,4 vezes). O músculo dos cetáceos é estruturado para a máxima capacidade de estoque de oxigênio. Acredita-se que este atributo deve-se a alta quantidade de mioglobina deste tecido. A mioglobina, ou proteína muscular, armazena oxigênio e está presente em quase todos os vertebrados. Esta proteína dá à carne das baleias e golfinhos uma cor escura. Ela estoca o oxigênio, liberando-o às células no momento necessário. A retia mirabilia também é mais uma adaptação anatômica. São redes de vasos que formam um plexo que age como um reservatório de oxigênio. É localizada sob a pleura, entre as costelas, e em ambos os lados da coluna vertebral.


Durante o mergulho, uma série de processos fisiológicos ocorre no organismo destes animais e, dentre eles pode-se destacar como principais: oxigênio é desviado para suprir as regiões vitais: cérebro e coração. Bradicardia: redução na taxa de batimentos cardíacos: resposta reflexa da glândula pituitária e do hipotálamo à sensação de submersão.
A circulação não essencial é reduzida e, em última instância, travada. Neste caso é acionado o mecanismo anaeróbio; não tão eficiente quanto o aeróbio, porém que permite às células musculares suportarem um período maior de tempo sem o fornecimento de sangue oxigenado.


As diferenças com relação aos humanos são complexas. Com relação às dúvidas pertinentes às doenças e acidentes causados aos ser humanos em mergulhos com ar comprimido, os mesmos não afetam os cetáceos, pois estes não respiram ar comprimido e sob pressão embaixo da água. Todas as características mencionadas transformaram os cetáceos em excelentes mergulhadores. Os cachalotes podem suportar até uma hora e meia embaixo da água, e mergulhar até cerca de 1.500m de profundidade. As baleias-jubarte até cerca de 200m por 30 a 40 minutos e os golfinhos, em geral, podem mergulhar até 80-150m por 5 a 15 minutos.

Uma baleia-jubarte prestes a realizar um mergulho de longa duração. Geralmente cetáceos hiperventilam e mostram a nadadeira caudal antes de um mergulho prolongado. Foto: Marcos Santos.

Caracterização Geral dos Cetáceos

Como em todos os campos da Biologia, antes de estudarmos qualquer forma de vida, necessitamos caracterizá-la e incluí-la em categorias (taxa – plural de taxon) que, de maneira geral, reúnem todas as formas de vida com características semelhantes. Dentro do Reino Animal, baleias e golfinhos estão inseridos no filo (um exemplo de taxon) dos cordados, pois, juntamente com outras diversas espécies de animais, apresentam a notocorda em pelo menos uma fase de seu desenvolvimento. A notocorda constitui-se de um bastão gelatinoso que, nos protocordados (exs: Ascidea, Balanoglossus e Anfioxo), representa o elemento de resistência, já que a sustentação é feita pela água que circula constantemente em seu interior. Além da notocorda, a presença de tubo nervoso dorsal e fendas na faringe (ou fendas branquiais), também são características básicas que agrupam estes animais no filo dos cordados.
Tanto em baleias e golfinhos, como nos seres humanos, a notocorda surge na fase embrionária e é substituída pela coluna vertebral durante o desenvolvimento. Por este motivo, tanto nós, como estes animais, somos agrupados no subfilo (um exemplo de taxon) dos vertebrados, que de uma maneira geral são representados por animais com crânio, encéfalo e vértebras. O subfilo dos vertebrados é subdividido em várias classes (exemplos: anfíbios, répteis, aves). Baleias e golfinhos e botos são agrupados na classe (um exemplo de taxon) dos mamíferos. As principais características que reúnem estes animais nesta classe são:

  • Presença de glândulas mamárias, que secretam leite materno fundamental para a sobrevivência de seus descendentes. No caso dos cetáceos, o leite é rico em gordura (20 a 50% em média), diferentemente do leite de vaca que ingerimos (cerca de 4%).
  • Presença de pêlos, que em algumas espécies desaparecem logo após o nascimento do filhote, tendo funções desconhecidas na fase embrionária. Em baleias e golfinhos estão escassos, reduzidos à região da cabeça como em baleias-francas, jubarte e cinzentas, ou ausentes. Talvez sejam estruturas vestigiais como o apêndice vermiforme em humanos. Em algumas espécies de golfinhos estão presentes no focinho dos recém-nascidos e após um determinado tempo são perdidos.
  • São animais que respiram oxigênio dissolvido no ar através de pulmões. Por este motivo, estes animais devem vir à superfície da água para respirar, tornando-se "escravos do meio aéreo". Já a grande maioria dos peixes, diferentemente dos mamíferos, conseguem captar o oxigênio dissolvido na água diretamente.
  • São animais "homeotermos" (peculiaridade compartilhada com a classe das aves), ou seja, que apresentam eficiente mecanismo de regulação de temperatura corpórea em um ótimo fisiológico, ou seja, para a eficiente produção de seu metabolismo corpóreo. Por isto são chamados de "animais de sangue quente". Independentemente da temperatura externa, eles mantêm a temperatura interna relativamente estável em torno de 36-37oC. Para isto, necessitam de grandes reservas alimentares.
  • São animais que apresentam o comportamento de cuidado à prole (também compatrtilhada com a classe das aves) altamente desenvolvido. Os jovens aprendem através do comportamento, proteção e alimentação providos pelos pais.
  • Os mamíferos são encontrados em todas as regiões do globo terrestre, apresentando uma grande diversidade de formas e tamanhos. Acredita-se que existam mais de 4.050 espécies de mamíferos viventes (número que varia de acordo com os autores e pesquisadores).

Dentro da classe dos mamíferos, baleias e golfinhos estão inseridos na ordem dos cetáceos. Os cetáceos são mamíferos exclusivamente aquáticos, de corpo fusiforme, hidrodinâmico, com os membros anteriores transformados em nadadeiras (e não barbatanas!!!!!!) peitorais, e com uma nadadeira (e não barbatana!!!!!!) caudal horizontal que propulsiona estes animais na água. Acredita-se que atualmente existam 82 espécies viventes, sendo que apenas 12 representam as grandes baleias de barbatanas, e as 70 restantes representam os cetáceos que apresentam dentes ao invés das barbatanas, como será descrito a seguir. Tamanho e forma do corpo do altamente variáveis dentro da ordem dos cetáceos. O tamanho pode variar de 1 metro e 20 cm (golfinho-de-Hector) até 33 metros (baleia-azul) de comprimento total na idade adulta. Estes animais, além de habitarem todos os oceanos do planeta, também são encontrados em estuários (regiões de transição entre mares e rios) e até em rios (dulcícolas).

Classificação dos Cetáceos

Os cetáceos por sua vez são subdivididos em 3 subordens:

  • Archaeoceti ou Arqueocetos (já extinta)
  • Mysticeti ou Misticetos (vivente)
  • Odontoceti ou Odontocetos (vivente)

As duas subordens viventes têm as seguintes características:

MISTICETOS
ODONTOCETOS
2 orifícios respiratórios
1 orifício respiratório 
(veja fotos: clique aqui)
Maior porte (6 a 33 m)
Barbatanas na boca

Menor porte 
(exceto o cachalote com 12-18m )

Com dentes na boca

 

As barbatanas são estruturas existentes somente nos representantes da subordem dos Misticetos. Elas consistem de placas de material queratinizado (como o de nossas unhas), que partem da maxila em direção à mandíbula. Formam duas redes para captura de alimento nos dois lados da boca. O número, o tamanho e as cores destas placas podem variar de acordo com as diferentes espécies, podendo ser considerados como padrões de identificação. Estas placas acabam por formar uma estrutura filtradora de organismos do plâncton (microalgas, pequenos crustáceos) até pequenos peixes.

O critério de classificação pode variar segundo o enfoque dado pelos pesquisadores. A partir do taxon de família, as divergências entre os inúmeros autores são ainda maiores.

Misticetos (12 espécies)

De uma maneira geral seus representantes são subdivididos segundo a presença ou ausência de sulcos ventrais, bem como quanto ao número destes. Estes sulcos têm relação direta com o tipo de alimentação e a estratégia alimentar realizadas pelas diferentes famílias, como será visto posteriormente no item sobre comportamento.

  • Família Balaenidae: Grandes e robustas, com uma cabeça muito grande em comparação com o corpo e com o rostro arqueado proporcionando uma feição curva da mandíbula. Com longas barbatanas e sem sulcos ventrais. Baleias-francas e baleia-da-Groenlândia.
  • Família Neobaleanidae: Incluiria uma única espécie (baleia-franca-pigméia; Caperea marginata), ainda muito pouco conhecida. Apresenta poucos sulcos ventrais e cabeça pouco arqueda.
  • Família Eschrichtiidae: Com pequenas placas de barbatanas, rostro estreito, delicadamente arqueado, com 2 a 4 sulcos ventrais (geralmente 2), sem nadadeira dorsal. Representante único: baleia-cinzenta, Eschrichtius robustus. Presente somente no hemisfério-norte.
  • Família Balaenopteridae: Os chamados "rorquais" com uma grande série de sulcos ventrais (poucos nas baleias-jubarte, que para muitos autores não são considerados como "rorquais"), com rostro gentilmente curvado, com pequenas barbatanas e nadadeiras dorsais sempre presentes (reduzida na jubarte). Baleias azul, fin, Sei, Bryde, Jubarte e minkes.


Odontocetos (70 espécies)

Nesta subordem é que existem várias divergências segundo os diversos autores. De uma maneira geral temos praticamente 10 famílias. Devido ao grande número de espécies viventes, representando praticamente 85% das espécies viventes de cetáceos, as famílias serão apenas citadas. Para os mais interessados nas descrições, a consulta dos guias de identificação pode dar uma noção mais detalhada sobre as famílias e as espécies de interesse.

  • Família Iniidae: Representada pelo golfinho da Amazônia (boto cor-de-rosa, Inia geoffrensis).
  • Família Platanistidae: Representada por pequenos cetáceos existentes nos rios Ganges e Indú.
  • Família Lipotidae: Representada por um pequeno cetáceo encontrado no Rio Yangtze, na China.
  • Família Pontoporiidae: Representada pela "toninha" ou "franciscana" (Pontoporia blainvillei).
  • Família Monodontidae: Representada pelos narvais e pelas belugas, ambos encontrados no Ártico.
  • Família Phocoenidae: São as marsopas do gênero Phocoena.
  • Família Delphinidae: Representada pelas orcas e pelos golfinhos em geral.
  • Família Ziphiidae: Representada pelas "baleias bicudas".
  • Família Physeteridae: Representada pelo cachalote.
  • Família Kogiidae: Representada pelos cachalotes anão e pigmeu.

ATENÇÃO!!!

A partir da década de 1990 o grande avanço dos estudos envolvendo as técnicas de análise de DNA passaram a re-discutir a classificação dos cetáceos. Novas descobertas estão sendo publicadas a cada ano e os números acima podem estar desatualizados. Acesse websites de Instituições como a IUCN para ter acesso aos dados atualizados.

 

Orifícios Respiratórios em Cetáceos

Dois orifícios respiratórios na baleia-jubarte, um MISTICETO

Apenas um na orca, um ODONTOCETO.

Fotos: Marcos César de Oliveira Santos

Golfinho ou boto? Terminologias Regionais

Em literatura estrangeira, a grande maioria dos autores utiliza-se de uma padronização de termos que se relacionam com as baleias, os golfinhos e os botos. Para esta parcela de autores, as baleias envolvem os cetáceos de maior porte, ou seja, as grandes "baleias" de barbatanas (baleen whales, em inglês – vide texto sobre classificação dos cetáceos e atente à descrição do que são as barbatanas). Entre elas estão as baleias-azuis, as baleias-jubarte, as francas, e outras (os cetáceos da infraordem dos misticetos).


Baleia-sei no Estreito de Drake. A maioria delas se mostra dessa forma aos observadores embarcados. Foto: Marcos Santos

Para alguns autores, o cachalote (cetáceo com dentes) seria incluído neste grupo das baleias, já que sua denominação em inglês significa "baleia de espermaceti" (sperm whale, em inglês). Já os golfinhos (dolphins, em inglês) seriam os odontocetos (cetáceos com dentes) de menor porte que possuem o rostro afilado, como o do famoso "Flipper". Apesar da orca receber a infeliz denominação popular de "baleia assassina" (killer whale, em inglês), este cetáceo é tecnicamente considerado como um golfinho. 

Orca, tecnicamente considerada como sendo um golfinho por ser um cetáceo com dentes na boca para apreensão de alimento. Foto: Marcos Santos

Termos como botos, delfins e toninhas, incluem-se na categoria dos golfinhos. As marsopas (porpoises, em inglês; literalmente “porco-marinho”) seriam os cetáceos de pequeno porte que não apresentam o rostro afilado. São os odontocetos do gênero Phocoena ou gêneros relacionados. Quanto à classificação dos golfinhos, é preciso atentar à nomenclatura das diferentes famílias de cetáceos, e perceber que existe uma família denominada de Delphinidae. Esta família engloba grande parte dos golfinhos comumente conhecidos juntamente com as orcas. Também é importante frisar que muitos estudos recentes de biologia molecular vêm auxiliando pesquisadores no mundo inteiro a conhecer melhor as espécies de cetáceos. Dependendo do ponto de vista dos autores envolvidos, as propostas de classificação podem apresentar ligeiras diferenças.

Boto-cor-de-rosa ou boto-vermelho (em função da cor da água): por muitos anos, em função da força de uso, algumas pessoas passaram a acreditar que o termo boto seria aplicado aos cetáceos com dentes de água doce e golfinho aos de água salgada. Foto: Marcos Santos

Uma espécie de cetáceo pode ser conhecida por diferentes nomes populares, dependendo da região considerada e pela força de seu uso. O Brasil é um território de grandes dimensões e diversas culturas. Em diferentes regiões, animais, frutas e utensílios do dia-a-dia podem receber denominações diferentes, dependendo da região ou estado onde se encontra. Por exemplo, o sinal de trânsito é mais conhecido em São Paulo como semáforo, no Rio de Janeiro como sinal e em outros estados como sinaleira. A mandioca também é conhecida como aipim e como macaxeira. A mexerica, como tangerina ou pocã. O mesmo ocorre com os termos "boto", "golfinho" no Brasil. Pesquisadores e pescadores brasileiros, de uma maneira geral, denominam os delfinídeos mais costeiros de "botos", e os outros encontrados em mar aberto de "golfinhos". Não existe uma regra que defina que botos são de água doce e golfinhos de água salgada. Existe sim uma força de uso regional que deve ser respeitada, pois faz parte da cultura de um povo.

Boto-cinza no litoral paulista. No sul do Brasil eles não ocorrem e, por lá, o golfinho-nariz-de-garrafa ocupa a faixa costeira e é chamado popularmente de boto. Foto: Marcos Santos

Portanto, não se preocupe com termos populares. Preocupe-se em saber distinguir a subordem dos cetáceos das demais de mamíferos, em saber distinguir as duas infraordens existentes, bem como as principais famílias. Mais do que nunca, preocupe-se em conhecer as espécies de comum ocorrência em águas brasileiras. Estas são pouco conhecidas em função da pesquisa com cetáceos no país ser relativamente recente.