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Sugestões Acadêmicas

É cada vez maior o interesse de estudantes de Biologia, Oceanografia e de Medicina Veterinária pelos cetáceos no Brasil. Todos os anos chegam ao LABCMA centenas de e-mails com pedidos de auxílios e/ou orientação em monografias/iniciação à pesquisa/trabalho de conclusão de curso (mais adiante trataremos todos esses casos como monografias), dissertações de mestrado e teses de doutorado, ou mesmo simples solicitações para orientações em estágio. Isso ocorre em função da escassez de doutores com especialidade em mamíferos aquáticos no país, decorrente do fato de que os estudos de médio a longo prazos com cetáceos foram iniciados a partir do final da década de 1980 no Brasil. Esses doutores ainda não passam de cerca de 25 no mês de junho de 2013, o que representa muito pouco para um país com as dimensões continentais do Brasil. A demanda de alunos interessados é cada vez maior e certamente não é possível absorver todo esse contingente.

Por outro lado, em alguns casos é possível encontrar doutores com formação específica em ecologia, genética, matemática, patologia, dentre outras áreas que não especificamente utilizam os cetáceos como modelos, e que passaram a nortear jovens estudantes e pesquisadores em seus trabalhos com cetáceos. Porém, como em muitos laboratórios que primam pela qualidade dos trabalhos dos pesquisadores e não pela quantidade, nos anos recentes a cota de orientandos de muitos laboratórios como o LABCMA tem beirado seu limite com poucas possibilidades de aberturas de novas vagas. Portanto, muitas vezes é humanamente impossível orientar monografias, mestrados, doutoramentos ou oferecer estágios além dos que estão sendo norteados no LABCMA. Em função da demanda anteriormente citada, decidiu-se criar esta seção destinada aos interessados em buscar os meios acadêmicos para se especializar em cetáceos. Segue algumas sugestões.

 

O primeiro passo: Como? Quando? Onde? Por que?


Essas são as principais perguntas que cada aluno deve se fazer antes de se dedicar ao mundo dos cetáceos. Por que quero me dedicar a esses animais? Quando quero me dedicar? Onde poderei começar a me dedicar? Qual o caminho que posso seguir? Quanto do meu tempo e do meu capital posso dedicar aos estudos com cetáceos? Todas essas perguntas são relativamente difíceis de serem respondidas. São difíceis pois geralmente elas envolvem um lado de afetividade aos animais que esconde o lado da realidade individual de cada estudante ou pesquisador. O “índice de fofulência” dos cetáceos muitas vezes mascara os obstáculos que estão por trás da caminhada a ser trilhada para dedicação aos seus estudos. Geralmente o estudo de cetáceos requer muito tempo de dedicação no campo e no laboratório, e o triplo deste tempo em bibliotecas e leitura geralmente em uma língua que não a portuguesa. Além disso, em um mundo escravizado pelo capitalismo, esse estudo certamente irá necessitar de investimento financeiro considerável. É uma fórmula "matemática" complicada de se resolver. Um número considerável de estudantes acaba resolvendo esta fórmula de maneira muito simples, realizando trabalhos de muito curto prazo, muitas vezes sem qualidade, sem a dedicação de tempo e de capital necessários, sem se preocupar em ouvir pesquisadores mais experientes na área de atuação, e algumas vezes sobrepondo os mesmos esforços de observação sem consultar grupos de pesquisa que já atuam em determinadas áreas de estudo há algum tempo. Aos que têm desejado evitar esse caminho mais curto, seria muito interessante começar respondendo às perguntas listadas ao mesmo tempo em que vocês tenham contato com parte da vastíssima literatura sobre os cetáceos.

Uma das perguntas comuns a serem feitas aos interessados em adentrar o meio acadêmico é: Preciso fazer mestrado e doutorado (=pós-graduação) para trabalhar com cetáceos? E a simples resposta é “não necessariamente”! Muitos estudantes acreditam que o único meio para vivenciarem esse desejo é adentrar o meio acadêmico. Há profissionais com bacharelado trabalhando em empresas de consultoria, sísmicas, projetos financiados por empresas de exploração de óleo e gás, centros de reabilitação no exterior, e organizações não governamentais, todos lidando com cetáceos. Nenhum desses está obrigatoriamente realizando estudos na academia. O meio acadêmico não deve ser procurado em função de um amor pelos cetáceos. Ele deve ser procurado porque há um desejo de engajamento em um mercado de trabalho no futuro e que poderá depender de uma especialização em ecologia, oceanografia, medicina veterinária, independente do modelo a ser utilizado. Um modelo de longevidade alta, difícil acesso, encontrado em um meio que não o que vivemos é muito complexo para servir de base a um trabalho acadêmico. Deve-se ter os dois pés ao chão quando da tomada de decisões. O meio acadêmico cobra uma conta alta daqueles que lá se encontram: leitura sem fim, créditos em disciplinas das mais variadas e nem sempre envolvendo assuntos que o cliente gosta, elaboração e apresentação de relatórios, edições contínuas dos mesmos após revisões dos orientadores, ausência do lar em função de viagens ao campo, e nem sempre uma garantia de bolsa de estudos que é efêmera; tem dia e hora para vaporizar.

 

Literatura

Há alunos que acreditam que chegarão à biblioteca e deverão estar estampados nas estantes os livros que eles querem. De preferência, deverão encontrar livros com títulos no estilo "Tudo sobre Cetáceos", ou "Encontre Aqui a Sua Monografia Pronta". Certamente, essas obras devem conter muitas fotos e devem estar escritas em português. Ledo engano! Essa é a primeira barreira a ser vencida e que pouca gente vence.

Muitas mensagens recebidas por alunos de graduação contêm queixas de visitas às bibliotecas sem êxito algum no encontro de referências sobre cetáceos. Conclusão: não souberam ou não quiseram procurar com afinco. Fica aqui uma sugestão: Solicitem ajuda às bibliotecárias e/ou aos bibliotecários! Uma das principais funções delas é ajudar o interessado a encontrar as fontes de informações. Peçam que ensinem como procurar trabalhos científicos específicos com a utilização de palavras-chave nos sistemas eletrônicos. Vocês que chegaram até aqui verão que, depois disso, vocês terão um agradável problema em mãos: selecionar o que pode interessar em uma série enorme de trabalhos científicos existentes sobre um determinado assunto.

A pesquisa com cetáceos é desenvolvida há mais tempo em países como os Estados Unidos, onde grande parte da produção científica tem sua origem. A língua inglesa é padrão e não há por onde fugir. Se este é um obstáculo intransponível, talvez o meio acadêmico não seja o melhor caminho para você.
Por fim, coloque em sua mente uma regra clara: “quem lê sabe mais e quem sabe mais, lê”. Nenhum conhecimento entra por osmose em sua mente. A geração Y se diz “multi-tarefas”. Leitura sem concentração é desperdício de tempo. Diferencie-se no mercado de trabalho. Invista no recurso humano que você está formando: você mesmo!

 

Material Biológico e Fontes de Informações

O que muitos estudantes não compreendem é que estudar cetáceos não é tão simples quanto parece. Não se obtêm material biológico de maneira rápida como nos casos dos estudos sobre invertebrados, por exemplo. Vocês também não irão encontrar baleias e golfinhos nos biotérios das Universidades. Também não é possível desenvolver estudos em cativeiro, pois, por enquanto e por sorte dos cetáceos, eles não são mantidos em cativeiro no país.
Uma forma de se obter materiais biológicos e informações poderia ser através de caça de exemplares, o que é terminantemente proibido pela legislação brasileira. Sobram duas opções: animais mortos e animais vivos em seu ambiente.

Boto-cinza em estudo na base do IOUSP em Cananéia. Foto: Marcos Santos.

Os animais mortos surgem em praias pelo país e existem grupos de pesquisa que, em alguns locais, já desencadeiam estudos sobre encalhes. Seria interessante contatá-los para averiguar quais os destinos dos materiais biológicos. Prepare-se, pois é muito provável que muitos grupos ainda não tenham um número amostral de materiais biológicos suficientes para a realização de um estudo de monografia, ou mestrado, ou doutorado. Além disso, geralmente parte do material biológico coletado ou em coleta pelo grupo de pesquisa está compromissado com componentes do grupo ou com grupos parceiros. Convém lembrar que os cetáceos geralmente não aparecem inteiros e frescos em praias, e tampouco em números suficientes para que, em um período relativamente curto, seja possível se fazer algum estudo de qualidade com um bom número de amostras em que se possa alcançar conclusões compatíveis com a realidade. É sempre bom lembrar que estamos falando em animais de vida longa, ciclo reprodutivo lento e que passam entre 80 e 95% do tempo de suas vidas sob a superfície da água. 

Boto-cinza: espécie mais comum de cetáceo encontrada na linha de costa no Brasil. Foto: Marcos Santos.

Com relação aos animais vivos: você terá que se deslocar periodicamente ao local onde os exemplares podem ser encontrados. Para aqueles que compõem a população de 17 milhões de habitantes da cidade de São Paulo, lembramos que o litoral mais próximo é Santos, a 98km de distância. Quanto mais o interessado se dedicar no campo, mais completas serão suas informações. O interessado terá que se empreender na aplicação de uma determinada técnica de estudos utilizando-se dos equipamentos básicos necessários. Como no caso dos encalhes, para o bem dos animais estudados e para se otimizar os esforços de observação, seria imprescindível que não houvesse sobreposição de esforços de investigação em áreas de ocorrência de cetáceos. Pequenas embarcações que se aproximam de cetáceos causam impacto (com o som e com a aproximação em si) e interferem em suas vidas. Imaginem quatro grupos de pesquisa se aproximando dos mesmos indivíduos para estudá-los todos os meses e quase ao mesmo tempo. Como no caso dos encalhes, o melhor que se tem a fazer é entrar em contato com grupos de pesquisa que atuam em determinada área para saber que estudos podem ser realizados para colaborar com o que já está sendo feito. Infelizmente isso não tem sido frequente em muitos lugares do Brasil e no exterior, o que implica em gastos desnecessários de tempo e de capital, além de se aumentar o impacto às populações de cetáceos.

Uma sugestão importante: invista em atender a eventos científicos específicos envolvendo mamíferos aquáticos. Há reuniões bienais sul-americanas (anos pares) e internacionais (anos ímpares). É em congressos que se tem contato com o estado da arte da ciência e que se faz contatos com os pesquisadores.

 

Monografias

Geralmente os estudantes interessados em realizar monografias não têm tempo e/ou capital disponível para investir na pesquisa de cetáceos no campo ou em laboratório. A Universidade requer seu desempenho nas aulas e nas provas, e sobra apenas alguns fins de semana e as férias. Dependendo do estudo a ser desenvolvido, é muito difícil que um trabalho de qualidade seja conduzido em um ano e utilizando-se fins de semana e férias. Em alguns casos é possível utilizar dados e materiais biológicos de grupos de pesquisa que já os possuem, facilitando assim o trabalho do estudante.

Muitas monografias são baseadas em revisões bibliográficas. Elas têm uma importância primordial no atual estado da arte em que o Brasil se encontra nesta área de estudos. Há pouco material bibliográfico de base sobre cetáceos escrito em língua portuguesa. Caso o assunto a ser escolhido seja interessante e a aluna ou o aluno façam uma revisão de qualidade, eles estarão preenchendo uma lacuna fundamental para os futuros estudantes, além de paralelamente estarem aprimorando seus conhecimentos na área.

 

Mestrado/Doutorado

Muito do que foi descrito para as monografias se aplica nestes dois casos. Porém aqui temos observado alguns problemas crônicos no Brasil. Muitos alunos têm utilizado o caminho do Mestrado e/ou do Doutorado com o primeiro intuito de ter uma bolsa de estudos para ter "vida após a graduação". Com o aumento das universidades país, a competição por bolsas de estudos é cada vez mais acirrada. Os órgãos de fomento têm suas regulamentações e suas prioridades. Cada aluno que aplica um projeto a esses órgãos deve estar ciente de seus regulamentos. Se os órgãos de fomento à pesquisa dizem que o projeto deve ser inovador e que os currículos do orientador e do aluno terão um grande peso na avaliação dos projetos, não será um projeto qualquer que poderá ser submetido por algum aluno e/ou orientador com pouco ou nenhum currículo na área. Na competição de projetos com cetáceos e outros a respeito de assuntos mais tradicionais no país (exemplo: Genoma), estão prevalecendo esses últimos. Tenha consciência de que a bolsa não é garantida. 

Por outro lado, muitos estudantes se aborrecem quando procuram orientadores e dizem: "Vocês me arrumam os conteúdos estomacais dos cetáceos que coletaram?" E aí recebem a seguinte resposta: "Temos muito pouco material coletado e este já está sendo analisado por um dos pesquisadores da equipe". Ou quando solicitam os dados de craniometria, por exemplo, quando os mesmos já estão comprometidos com um trabalho de mestrado ou de doutorado de outro(s) pesquisador(es) que são da equipe consultada.

Outro problema que assola estudantes de graduação em final de curso é que um número considerável deles não sabe qual é o significado real de um mestrado/doutorado, muito menos o que deve ser realizado nos diferentes programas das diferentes Universidades. Sugere-se aqui que sejam acessados os sites das Universidades que oferecem os cursos de pós-graduação. Àqueles que almejam sair do país para fazer mestrado/doutorado, os mesmos problemas citados anteriormente para as bolsas no país se aplicam para a realização de pós-graduação no exterior. Sugere-se que se acesse os sites dos órgãos de fomento de bolsas (FAPESP, CNPq e CAPES) para realizar pós-graduação no exterior e averiguar o que é necessário para alcançar este objetivo.

 

Possíveis Estudos

Uma listagem de possíveis estudos a serem desenvolvidos com cetáceos encontra-se a seguir. As principais fontes de informações e de materiais biológicos são provenientes da caça, dos cativeiros, dos encalhes e de estudos realizados com populações em ambiente natural. Os principais aspectos a serem abordados em pesquisas com cetáceos podem ser:

  • BIOACÚSTICA: Necessita-se de hidrofones, gravadores, laboratório com computador e software para análise, e saídas ao campo para gravar os sons dos animais;
  • CAPTURAS ACIDENTAIS: Somente realizados estudos com populações em ambiente natural e de médio e longo prazo in situ. Requer apoio da comunidade pesqueira;
  • COMPORTAMENTO: Somente realizados estudos com populações em ambiente natural e de médio e longo prazo in situ. Métodos muito complexos para investigar quem passa a maior parte de sua vida sob a superfície da água;
  • CONTAMINAÇÃO POR METAIS E/OU POR ORGANOPERSISTENTES: Necessárias amostras frescas de gordura, e/ou rins, e/ou fígado, somadas à utilização de um laboratório sofisticado inserido em padrões internacionais;
  • CRESCIMENTO E DESENVOLVIMENTO: Necessária a utilização de animais mortos e frescos de diferentes classes etárias e uso de crânios, gônadas e dentes para esses estudos;
  • DIETA/HÁBITOS ALIMENTARES: São necessários os conteúdos estomacais de animais mortos, a consulta ou elaboração de coleções de referência de otólitos de peixes, bicos de lulas e noções de identificação de espécies de peixes, lulas e crustáceos;
  • ECOLOGIA: Somente com populações em ambiente natural e de médio e longo prazo in situ. Geralmente necessita de ferramentas básicas como máquinas fotográficas, filmadoras, gravadores de sons, marcadores satelitais, etc;
  • EDUCAÇÃO AMBIENTAL: Com começo, meio e sequência para atingir uma meta final. Não é distribuir camisetas e adesivos, bater fotos e postar em facebook ou site de projeto de pesquisa;
  • ESTIMATIVAS DE TAMANHOS POPULACIONAIS: Somente com populações em ambiente natural e de médio e longo prazo in situ;
  • ESTRUTURA ETÁRIA: Contagem de Growth Layer Groups (grupos de camadas de crescimento) em dentes de odontocetos. Coleta e armazenamento de dentes, processo de preparação (corte/corar) para as leituras. Necessário realizar comparações com outros estudos para padronização de leituras. Para as baleias utilizam-se as bulas timpânicas. É histologia;
  • FILOGENIA: Estudo de fósseis e/ou crânios + genética (DNA);
  • FISIOLOGIA: Cativeiro + populações em ambiente natural e de médio e longo prazo in situ;
  • GENÉTICA: Principalmente pele ou músculo (DNA);
  • MORTALIDADE E IMPACTOS DE NATUREZA ANTRÓPICA: Somente com populações em ambiente natural e longo prazo in situ;
  • PATOLOGIAS/HISTOLOGIA: necessária a utilização de tecidos frescos coletados preferencialmente de exemplares que não tenham sido armazenados em freezer + observações in situ;
  • REPRODUÇÃO: Necessário obter gônadas + dentes ou bulas timpânicas. É histologia;
  • SISTEMÁTICA: Geralmente são utilizados crânios (craniometria) e/ou morfometria + padrões de coloração de exemplares encontrados em diferentes áreas geográficas + genética;

Todos os aspectos citados requerem um número amostral que possibilite se alcançar conclusões compatíveis com a realidade. Para atingir este número amostral necessita-se investir tempo e capital em coletas. Nota-se que alguns materiais biológicos podem ter mais de uma utilidade, e muitas vezes os grupos de pesquisa priorizam um determinado estudo com aquele material ao invés de outro estudo.